terça-feira, 8 de setembro de 2009
A porta da sala
Suo frio numa simples caminhada pelo shopping. Dou passadas rígidas e desconexas com um corpo angustiado. Na tentativa de passar em branco pelo olhar das pessoas, termino por chamar mais atenção. Idiotas nunca aprendem com os próprios erros, mesmo sabendo exatamente onde estão errando. Você certamente erra todo dia e sabe disso. Contudo, não lhe impede de continuar errando, errando, errando. Tentativa e erro só funcionam para matemáticos, físicos e budistas. Os seres normais magoam a mesma ferida até provocarem outra.
Assim é viver em sociedade teimando em pensar. Você se desencontra no próprio encontramento, nos papéis sociais exercidos cotidianamente. Esbarra na impossibilidade de esquecer quem você é e onde você está. As salas de aula, por exemplo. Até os vinte e cinco anos um sujeito escolarizado passa pelo menos um terço de sua vida dentro de uma sala de aula. Em vez de estarem brincando, se drogando ou trepando, os jovens matam o tempo coletivamente entre quatro paredes. Um terço! É muito tempo para não se sentir em casa. Ou à vontade. Tive um ataque de pânico quando fazia a 6ª série. Não lembro qual era a aula. Pensei que iria morrer ali dentro. Só me acalmei quando fui literalmente salvo pelo gongo.
O que me fez continuar na escola? Ir para o fundão. Descobri outra maneira de assistir às aulas. Quem é do fundão sabe o quanto pode ser divertido ser do fundão, se você souber a arte da discrição. Mesmo assim, nunca me senti totalmente calmo numa sala de aula. Uma sensação de urgência e incômodo sempre me acompanha enquanto algum professor vomita tudo aquilo o que sabe. Estou sempre observando alguns dormindo nas carteiras, outros lendo livros, revistas, bilhetinhos. Há aqueles com síndrome das pernas inquietas, os estaladores de pescoço compulsivos, os que rangem as carteiras no chão irritantemente e até os que fingem, de forma excepcional, prestar atenção à aula.
Sem falar do mais aterrorizante de tudo: entrar e sair da sala no meio da aula. Por mais cool que você esteja sempre é uma experiência perigosa. Todos estão lhe acompanhando entrar e ir desconfiadamente até a carteira mais próxima ou o contrário. Para um fóbico social como eu, é uma visita ao inferno. Noutro dia precisei sair da sala e meu corpo simplesmente não se mexia. Eu em pé travado torcendo para o professor tropeçar, cair, quebrar os dentes. Qualquer coisa para desviar de mim a atenção da turma. Fui destravando o corpo enquanto torcia para chegar logo à porta, num verdadeiro espetáculo bizarro. Para piorar, o professor ainda parou a aula e abriu a porta para eu sair. Filho da p...
Enquanto esbravejava em silêncio minha própria mediocridade, pus-me a questionar o verdadeiro motivo de meu tormento enquanto estudante. A porta da sala, ela fica na frente, ao invés de ficar atrás. Fruto da educação ditatorial, a porta fica na frente não à toa. Ela inibe o fluxo de entrada e saída de alunos, confere poder à figura do professor e cria traumas para toda a vida em neuróticos como eu. Sensatamente, a porta deveria ficar na parte detrás da sala. Dessa forma a aula não seria atrapalhada e o professor precisaria ser realmente bom para manter todos sentados até o fim de seu blá-blá-blá. Assim como nos auditórios, nos quais ninguém é obrigado a permanecer se o palestrante não for interessante o suficiente.
Fico imaginando como a mudança da porta da sala de lugar acarretaria toda uma transformação estrutural na educação como um todo. Penso se isso propiciaria aulas mais orgânicas, interessantes e humanistas, nas quais o professor seria mais um propiciador de conhecimento ao invés de um ditador do mesmo. A monotonia de aulas expositivas e vazias apenas para cumprir a carga-horária cederia vez a debates de fato contundentes e significativos. O aluno deixaria de ser tratado como um idiota “sem luz” para ser estimulado a se apossar do conhecido ofertado. Construiria o seu próprio conhecimento junto com os outros. Faria com que um terço de sua vida fosse gasto numa sensação de evolução, não perda de tempo. Tudo graças a uma simples inversão na direção das carteiras.
Em contrapartida, o fundão deixaria de ser fundão? Desapareceriam as pernas inquietas, o rangido irritante das carteiras no chão, o sono, os bilhetinhos, a arte secular da discrição? Resolveria minha fobia social? Terminaria meu desconforto dentro de uma sala de aula? É mesmo a porta ou minha incapacidade de ser uma pessoa segura de si? Quando estou no lugar do professor, dando cursos e oficinas de Cinema, sinto-me mais à vontade. Seria então minha própria condição de estudante acomodado à angústia de não buscar o conhecimento, mas sempre esperá-lo vir? Estamos todos presos a esse arquétipo? No fundo nos fazemos de idiotas “sem luz” e conferimos o poder de quando entrar e sair ao professor? Ou estar lá na frente é mais confortável porque a porta da sala está bem ao lado?
sexta-feira, 3 de julho de 2009
PROBABILIDADES
É bem provável o distanciamento emocional das pessoas generalizar-se e sair do controle. Tornar-se-á fácil e justificável a individualidade e a solidão. Não a solidão externa, o ser sozinho giramundo, mas a solidão mental, interna, estar-se junto sentindo-se terrivelmente só. O não-pertencimento às relações e aos laços afetivos. Se barram sua vontade, estar com alguém perde o sentido. Dê o fora.
É bem provável os pontos de fuga deixarem de ser as drogas e a loucura e recaírem na religião, na busca pelo divino, pague-se o preço que for. Castrem-se as emoções e amputem-se os sentimentos em prol da espiritualidade. Estar com Deus basta num mundo no qual não se precisa viver plenamente.
É bem provável ninguém nunca mais amar o outro verdadeiramente, mas sim o jogo, o flerte, a impossibilidade da entrega. É bem provável rezarmos para sermos amados a pedirmos para amar. E dizermos amar o outro que nos ama, mas no fundo sabendo o cinismo a culminar num apodrecimento do afeto e, por extensão, de si mesmo.
É bem provável sermos cada vez mais cruéis de maneira apurada, sutil. A crueldade far-se-á de pequenos detalhes perceptíveis somente aos sensíveis teimosos, os sofríveis por opção. O mundo está diminuindo os espaços aos delicados, os escrivães de sua própria dor, miséria e melancolia.
É bem provável a tristeza fortalecer-se egocentricamente nos feios, tortos e burros. Arrumar desculpas para ser triste, magoado e isolado de si mesmo deverá ser tão fácil quanto deixar um picolé derreter ao sol. Ou o oposto, por que não? Ego inchado e amor-próprio exacerbado são fortalezas tão bem guardadas que vez por outra você se pega imaginando o motivo do outro não conviver pacificamente com seu jeito. Ele que se foda, então.
É bem provável as paixões se tornarem de plástico e os afetos de vidro. Dar-se-á virtualmente os contatos que nos comove. Chegará o dia de revelarmos nossos intentos mais íntimos somente pela internet, onde o meio é a mensagem. Reações sentimentais e corporais resumidas a terabytes ansiosos por uma resposta, seja ela qual for.
É bem provável o sexo ser casto no futuro e as pessoas traírem-se com mais frequência em busca de um prazer proibido, de uma sacanagem ilícita. É chato transar com quem a gente transa, não há novidade nos movimentos e nas posições. Tornar-se-á preciso extinguir a ética e a moralidade para manter uma relação duradora.
É bem provável ser fundamental vender a alma ao diabo para alcançar a felicidade ou o sucesso. Deus terá gente demais no pé, implorando misericórdia pelas impurezas do pensamento. Talento é entrar no jogo ao compasso do juiz, mesmo você não tendo a mínima ideia de quem o seja.
É bem provável todas as nossas verdades estarem erradas e não haver motivo para se cogitar o porvir. É bem provável o pós-apocalipse ser exatamente como é hoje e continuarmos crendo na nossa própria miséria, no beijo na boca e na procura da sensação de felicidade sem alcançá-la de fato.
É bem provável que eu esteja errado sobre todo o dito aqui. Vagamos pelo caos no momento que necessitamos disso e fazemos nossas apostas tortas para o jogo do reencontro conosco. E sinceramente, acerca dessa última probabilidade, eu espero estar certo.
domingo, 28 de junho de 2009
OS QUATRO TIPOS DE PESSOAS QUE VOCÊ VAI ENCONTRAR (OU NÃO) POR AÍ
Existem quatro tipos de pessoas, partindo do pressuposto que, dependendo da hora, boas e ruins todas são: as comuns, as chatas, as interessantes e as especiais.
As comuns você vê a todo momento; para onde você olhe há uma pessoa comum na labuta inacabável do dia a dia.
As chatas você só vê quando está pensando em não vê-las, ou seja, em várias ocasiões. Não dá para fugir delas. Nem pense nisso, aí é que aparecem.
As interessantes só são interessantes por conta de algum referencial, por algo que fizeram ou fazem. Fora isso, são tão comuns quanto chatas.
E as especiais são aquelas pessoas que dificilmente você um dia vai conhecer. São apenas projeções de tudo aquilo o que você não é e gostaria de ser.
Moral da história: ao contrário do que diz a música, não existem pessoas especiais. Definitivamente, não existem.
Então por que, afinal de contas, eu ainda continuo procurando o último tipo?
Twitter, 28 de junho de 2009
18h41
terça-feira, 16 de junho de 2009
de um tolo, tolices
terça-feira, 26 de maio de 2009
no calor da noite
a velhice está velha demais para ser levada a sério
agora estamos todos juntando os pedaços
de um passado remoto, do início de um império
vivemos aquilo o que não era para viver
consumimos lixo tóxico sem saber
que a vida ainda não ficou para trás
que nem tudo é tanto fez tanto faz
por favor, não fique triste
não faça o meu dia ficar pior
pense em toda a alegria que existe
pense em tudo o que se gera com o suor
a esperança está em falta, sei disso bem
mas o futuro sempre algum dia vai chegar
mesmo tudo morrendo e o amor também
você em algum momento vai se encontrar
e vai chorar como nunca chorou antes
vai chorar cheio de lembranças distantes
querendo de volta o que você nunca teve
as pessoas, os lugares nos quais nunca esteve
eu não durmo a noite inteira, todos sabem
mas você não vê o dia belo há algum tempo
deixe a tristeza de lado antes que as chances acabem
e você termine indo embora com o vento
desaparecer não deve ser uma coisa boa
a pele descolando dos ossos e tudo escurecendo
não se deixe acabar por um sentimento à toa
não deixe perceberem que você está sofrendo
todos sofrem alguma vez, isso é tão normal
mas sua falta de perspectiva está me deixando mal
no calor da noite você se conforta
ao chegar o dia tudo vai embora
sei o quanto você é forte e cheio de coragem
mas depois de duas doses você se esquece
de que esse sentimento não passa de uma miragem
de que somente sua vida real prevalece
é difícil estar perdido, ainda mais não sendo jovem
tão jovem e disposto o quanto você gostaria de ser
porém, acorde, sua vida está em desordem
você não tem as pessoas que gostaria de ter
você está vivendo o que não era para viver
está indo ao encontro do fim sem saber
que a vida ainda não ficou para trás
que nem tudo o que não foi feito se desfaz.
Teresina,
Quarta, 2 de julho de 2003
18:03
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Alguém, algum dia
Se alguém algum dia ter os seus sonhos todos realizados, que eu não possa mais permanecer acordado. Os sonhos servem para serem sonhados, sem qualquer responsabilidade em se tornarem reais. Perder um sonho para a realidade é aceitar que você já não é mais criança e que os sonhos já não são sonhos, e sim vontades de alguém que precisa provar o tempo todo que é capaz de ir atrás do que se quer, quando na verdade o verdadeiro desejo está escondido numa lembrança perdida.
Se alguém algum dia apontar quais as lembranças que ficam, que eu já não tenha condições de lembrar-me de nada. De nenhuma alegria e de nenhuma tristeza. De nenhum arrependimento e de nenhuma poesia, por mais bela que seja. Da mesma forma que as pessoas querem esquecer tudo o que não lhes agrada, eu quero esquecer que é preciso esquecer também os momentos em que achamos que somos felizes, já que esses são os que mais doem quando percebemos que é inútil viver o presente com os olhos no passado.
Se alguém algum dia perceber que nem tudo passa, que algumas coisas permanecem para sempre e que outras ficam indo e voltando, que eu tome consciência que a única constante das coisas é que as coisas são inconstantes. Não existe inércia na vida real, mesmo que não movamos uma palha sequer para mudar algo que indubitavelmente será mudado pela própria dinâmica da rotação do globo. Nada permanece do mesmo jeito por muito tempo. As coisas quebram. As pessoas mudam. E se a vida dá voltas e voltas e pára no mesmo lugar, não é exatamente o mesmo lugar, mas com alguns milímetros de diferença. Alguns notam, outros não.
Se alguém algum dia notar que algumas pessoas não mudam ou simplesmente não percebem que o mundo se transforma em novo a cada dia, que eu olhe para minha resistência em aceitar as lições que as horas de solidão oferecem e conclua que o tempo não existe para aqueles que permanecem estagnados na própria falta de percepção do desenrolar dos fatos. Os dias vêm e vão para nos fazermos conviver com nossas escolhas, as boas e as ruins, e assim nos tornarmos o ser humano que Shakespeare inventou, embriagado pela melancolia do vinho e das jovens tardes de domingo.
Se alguém algum dia sentir que o domingo é um dia que passa arrastado e pesaroso, principalmente para os feridos e os desenganados pela vida, que a quarta-feira seja meu dia de lastimar a falta de perspectiva dos que andam a esmo debaixo desse sol, pois é no "sufoco da semana" que corro para todos os lados sem a mínima noção de para onde o chão está me levando. As coisas passam por você como se você não existisse ou fosse apenas uma peça descartável do cosmos que rege as relações humanas, ácidas e frágeis ao mesmo tempo. Um beijo pode muito bem estar dizendo "oi, você me aceita como sua boca-reflexo para sempre?" ou "foi mal, me enganei com o lance do para sempre, agora estou lhe dando adeus".
Se alguém algum dia entender que certos adeus não são meros "até logo" ou "vejo você amanhã", que eu esteja surdo-mudo para não cair nas armadilhas que a nossa falta de vontade é capaz de arquitetar. Paixões renitentes um dia sempre terminam morrendo, e se não morrem matam, o que dá na mesma coisa. Se trezentos anos depois o seu telefone tocar com o número de um fantasma, é porque você fez certo em se jogar no rio e se deixar levar pelas águas. É sempre duro encontrar uma tampa para o buraco de uma perda. Mas todos os sábios o mandam seguir em frente, embora você não saiba o que é exatamente "seguir em frente" ou em que direção o "em frente" fica. Enfrente o em frente e chegue à horrível conclusão que o desapego de tudo, sobretudo de você mesmo, é a única forma de perceber que o amor é mais uma nuvem que se forma no céu, fica um pouco e depois vai embora a mando da imponência do sol.
Se alguém algum dia achar que o amor é a razão de tudo, que eu assista nos noticiários acerca de toda a atrocidade que existe no mundo e tente chorar por ver um nome tão bonito ser responsável por tanta desgraça. Amor. Roma. Todos os caminhos levam a Roma. Ninguém escapa do amor. O amor dos Beatles que fez aumentar estupidamente a taxa de natalidade. O amor dos pais que perdem seus filhos. O amor dos filhos que xingam seus pais. O amor dos jovens que pensam que lord Byron é Deus e esquecem a historinha da nuvem. O amor dos que se amam tanto que não sabem amar outra pessoa. Ou dos que não se amam tanto e se confluem no outro para apenas ter um segundo cordão umbilical cortado sem anestesia.
Se alguém algum dia disser que as feridas do coração são aquelas que nunca cicatrizam e são capazes de mudar um ser, que eu me lembre constantemente de que as feridas da alma são bem mais profundas, pois incomodam o indivíduo desde o dia do nascimento até o dia da morte. Sem pena. Sem concessões. Essas feridas não saram com nenhum "eu te amo" banal dos amores contemporâneos. Muito menos são atenuadas por qualquer orgasmo intenso. Não, senhor. Não há olhar mais doce ou afeto mais verdadeiro que cure os que entendem que a vida é uma grande sensação de perda de si mesmo. Não há remédio para as doenças de Deus, ou seja lá de onde elas vêm. Não entender por que as coisas acontecem é saber a verdade e estar condenado à existência, à pura existência.
Se alguém algum dia tentar me fazer acreditar em tudo aquilo o que eu não acredito, que eu saiba que a única verdade que existe no mundo são as coisas que não podemos controlar. São os impulsos que nos levam a construir e a destruir quase como um ato reflexo. São os momentos de paixão. Os sentimentos desmedidos. A fuga que não chega a lugar nenhum. O riso que não cessa. As lágrimas que não secam. A saudade que não passa. A dor, sobretudo a dor, dos que teimam em acreditar nas coisas que acreditam. As pessoas se jogam no abismo pelos motivos mais absurdos. Todos somos sujeitos dessa oração. E se algum dia alguém aparecer e quebrar todas as suas verdades, com um olhar doce e uma mão delicada, só então começará a entender que, qualquer dia desses, você vai se perceber vivo e feliz por não entender absolutamente nada do que está acontecendo.
20h38
terça-feira, 21 de abril de 2009
A Bolha que Somos Nós
É mais fácil dizer que não nos importamos. Que é melhor do jeito que está. As pessoas nunca assumem suas fraquezas diante do espelho. Claro que não. O espelho vai ser sincero e cruel se você demonstrar um mínimo de hesitação. Então, você toma banho, veste sua roupa mais confortável (ou o contrário, dependendo da ocasião) e para diante do espelho para finalizar os detalhes. Detalhes são importantes nessas horas. Eles dizem quem você é e o que você deseja.
Então, um pouco de maquiagem. Você encara o espelho como se o obrigasse a uma aprovação. Os cabelos já estão escovados, mas sempre dá para mexer mais um pouco. O batom é pego e destampado como se fosse uma arma. Nunca se deve sair de casa sem batom. É o princípio básico que você aprende aos treze. Se o sexo foi inventado na França, por que o batom também não seria? Mas você está se lixando para isso. Quem precisa ter consciência do hibridismo cultural? Se funciona, tem mais é que ser usado.
Se cai bem, tomara que caia, não é mesmo? Nesses tempos de vanguarda do vazio, já não se sabe onde começam as introjeições machistas e onde termina o feminismo. O que importa é dizermos que não é importante, que somos livres e conscientes de tudo o que fazemos. Erramos por querermos errar. No fundo, é mais divertido, é mais saudável. Acertar é estar preso a ideias e pensamentos que não são seus. Um beijo roubado é muito mais excitante do que um consentido. Mas quem vai admitir isso?
Antes que o espelho ouse alguma pergunta descabida ou observe com mais atenção, você sai, com a plena convicção de que sabe exatamente o que está fazendo. Você faz o seu próprio destino e hoje você só quer sair para se divertir, conhecer gente interessante, dançar. Intimamente, você quer encontrar alguém para ficar. Mas você evita levar isso em consideração, já que sua prioridade são os amigos e nada foi previamente discutido com alguém pelo MSN ou Orkut. Se rolar o flerte, o papo no mínimo fazer sentido e você se sentir à vontade, por que não? Ultrapassando os três obstáculos básicos, você até agradeceria por ter sido beijada.
Você só não quer se pegar voltando para casa às três da madrugada vendo os postes passarem julgando-a por sentir-se vazia, por simplesmente estar voltando para casa. Você não quer sequer ter que pensar no que deu errado, se foi você ou se foram os outros. O ideal seria você ter a capacidade de abstrair a casualidade, sem perder de si a sensação de romantismo que diz ter, e se descobrir retornando após fazer sexo com um estranho ou até mesmo com quem você não vê há anos. Isso é ser uma jovem adulta. Você é livre, relativamente atraente (isso tomando você mesmo como referência) e preparada para qualquer que seja a abordagem. Você nunca vai ser obrigada a fazer o que não quer fazer. Esse é o pensamento que faz você encarar a vida com uma naturalidade inebriante.
E então, todas as peças estão em seus lugares: os amigos, o ambiente e o seu estado de espírito. Você se sente bem. Evita ficar deslocada e desenrola qualquer conversa. É uma boa sensação, a de ter o controle, a de não estar fugindo de nada. Você abraça as pessoas, beija-as, dá atenção, recebe atenção. E o sorriso é o sinal de que a porta do seu mundo está aberta, sem demonstrar qualquer sinal de carência. Você é interessante. Você se acha interessante e vê isso como uma coisa boa, ser simpática com todos e passar boas energias. Não é errado ter o amor-próprio bem desenvolvido. Danem-se os pessimistas. Você é mais você e é por isso que há pessoas agora à sua volta.
Não há o que temer. Não há o que chorar. Você é feliz, independente do que aconteça ou deixe de acontecer. Você sabe o que quer e aquilo o que não gosta. Pronto, a sua receita está mais do que feita para se ter uma vivência plena de tudo o que a vida lhe trouxer. Você sabe separar as coisas e não perde muito tempo pensando no passado. Vê as escolhas tristes como aprendizados e sempre busca extrair o que há de melhor em todas as situações. Não existem arrependimentos quando só tem-se uma vida para gastar. Você solta frases como “erros são acertos ao contrário” com uma delicadeza exuberante. Afinal de contas, a gente só erra tentando acertar, não é?
E você não deixa de, entre um amigo e outro, expiar as outras pessoas, aqueles ilustres desconhecidos, procurando quem sabe o beijo roubado que você nunca vai admitir, mas que vai completá-la por trinta segundos. Até menos do que isso. E vai que você não o empurra, não se faça de rogada, deixe a coisa fluir como todo rio perene e pague para ver. Se os dois querem, um não se abstém. E depois você se preocupa em se apresentar e manter uma conversa interessante, ainda que saiba que é mais fácil ocorrer o contrário. As pessoas conversam, e conversam, e conversam (geralmente assuntos alegres e banais). Então, há aquele silêncio. Olhou um para a boca do outro? Não tem espaço que evite o que já deixou de ser implícito. O ritual é sempre o mesmo – existem variações, mas é sempre a mesma estrutura –, porém você gosta disso. Não se incomoda com o jogo. Até prefere ele. Faz você se sentir viva e desejada.
Porque é isso o que toda mulher quer: ser desejada. E se ela for desejada pelo seu objeto de desejo, perfeito! Daí, surgem as paixões e os amores que, ora rendem poemas, livros, filmes e músicas, ora parem filhos e contas a pagar. Contando que siga uma ou direção, você topa. Já aprendeu que vai sobreviver, não importa o tamanho da queda. Se as pessoas caem, é para que possam aprender a se levantar. Você, que já caiu algumas vezes, sabe que o chão começa a ficar menos duro depois das duas ou três primeiras. Ou quem sabe é a bunda que fica anestesiada. O que importa? Você não vai se privar das delícias e indelícias dos sentimentos por conta de algumas quedas mal-amortecidas.
Após todas as oportunidades serem aproveitadas e desperdiçadas, você adentra o seu quarto com uma única sensação: cansaço. Um pouco de fome, mas isso pode esperar algumas horas. Despe-se displicentemente, põe a camisola de sempre, o celular ao lado e se deita. Os olhos já não suportam permanecer abertos. Você se cobre, como faz noite após noite. É reconfortante se deitar e se cobrir. É reconfortante ter o controle do seu próprio mundo. Se você for muito persistente, a ilusão pode até se tornar verdade. A bolha não foi furada dessa vez e você pode dormir
